
Os impactos na saúde e o movimento pelo fim do modelo
Com prejuízos à vida do trabalhador, a escala 6×1 parece estar com os dias contados, mas isso não significa o fim do problema
Com prejuízos à vida do trabalhador, a escala 6×1 parece estar com os dias contados, mas isso não significa o fim do problema
O que começou como um burburinho na internet está se encaminhando para virar lei federal. A famosa escala, na qual se trabalha seis dias para ter apenas um de folga, é atualmente o regime de trabalho mais utilizado no Brasil. Especialmente em setores que exigem menor qualificação formal, como comércio, serviços, atendimento ao público e indústrias. Embora nunca exatamente querida pelos trabalhadores, a jornada de 44 horas semanais — estabelecida pela Constituição de 1988 — é o que tem sustentado esse modelo legalmente nas últimas décadas.
Agora, o cenário pode mudar. Após o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), fundado em 2023 pelo então balconista e atual vereador Rick Azevedo ganhar notoriedade nas redes sociais, a possibilidade de mudanças na lei passou a ser discutida tanto pela sociedade civil quanto pelo Poder Legislativo. A deputada federal Erika Hilton abraçou a causa e apresentou a PEC 8/2025, que propõe a redução da jornada para três folgas semanais (o modelo 4×3) e busca extinguir a escala 6×1. Embora a proposta seja considerada inviável por grande parte dos empregadores, um “meio-termo” parece ganhar força na escala 5×2, já praticada em diversos setores e vista com bons olhos pelo governo federal.
“Nosso próximo desafio é o fim da escala 6×1 de trabalho, sem redução de salário. O tempo é um dos bens mais preciosos para o ser humano. Não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o corpo e a mente e curtir a família”, declarou o presidente Lula em mensagem ao Congresso Nacional.
O problema da escala 6×1
Para a psicóloga Aline Graffiette, o maior prejuízo deste regime é a privação do descanso. “A escala 6×1 pode gerar um cansaço acumulado e reduzir drasticamente o tempo de convivência social e familiar, o que impacta diretamente a saúde mental. No entanto, é preciso ressaltar que o adoecimento psíquico não é exclusivo dessa escala; é um fenômeno mundial relacionado às novas dinâmicas do trabalho”, reforça.
De fato, o trabalhador brasileiro enfrenta desafios crescentes na saúde emocional. O diagnóstico de Síndrome de Burnout cresceu impressionantes 136% entre 2019 e 2023, segundo levantamento do INSS, sendo que 70% dos diagnosticados são mulheres. Ao todo, o país somou mais de 4 milhões de afastamentos profissionais motivados por questões de saúde mental em 2025, de acordo com o Ministério da Previdência. “Pouco tempo de descanso e de vida social pode, sim, estar associado ao aumento de doenças mentais, incluindo o burnout. Mas eu não coloco a escala 6×1 como a única responsável por isso. Uma eventual redução da jornada, se vier acompanhada de queda na renda ou necessidade de dois empregos, pode gerar ainda mais estresse e frustração, aumentando o risco de adoecimento no médio prazo”, alerta a psicóloga.
Em busca de qualidade de vida
Para Aline, a mudança de escala é uma evolução natural da sociedade. Mas um dia a mais de descanso, sem refletir sobre a situação do trabalho como um todo no Brasil, não será uma solução mágica. “Existem outros fatores envolvidos, como pressão por resultados, ambiente organizacional e insegurança financeira. A análise precisa ser mais ampla, considerando não só as horas de trabalho, mas também os impactos econômicos e sociais. A saúde mental é um direito fundamental que envolve o equilíbrio entre trabalho, lazer e segurança material.”
Nesse contexto, a discussão promete ser longa. O levantamento de 2025 do DIEESE concluiu que, para viver bem, uma família de quatro pessoas deveria receber um salário médio de R$ 7,1 mil para suprir necessidades básicas e lazer. Como o salário mínimo atual, mesmo com ganho real acima da inflação, está fixado em R$ 1.621, uma coisa é certa: a mudança da escala é apenas o começo de uma conversa muito mais profunda sobre dignidade no mercado de trabalho.
Enquanto não muda…
Embora o fim da 6×1 esteja sendo debatido de forma acalorada, o desfecho desse processo legislativo ainda não tem data definida. Para a psicóloga Aline Graffiette, independentemente da escala vigente, os trabalhadores devem priorizar o autocuidado. “O cansaço excessivo impacta a atenção e a concentração. É importante organizar o tempo disponível, priorizar o descanso real e buscar momentos de qualidade com pessoas próximas. Também é válido buscar apoio psicológico e cuidar do planejamento financeiro para reduzir as inseguranças”, conclui.
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