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Cena de Se Desejos Matassem… (Reprodução)
O diabo está nos detalhes.
O segundo episódio de Se Desejos Matassem… começa com um flashback para o primeiro dia de aula de Yoo Se-ah, que até então tínhamos visto apenas como estudante de ensino médio, em uma nova cidade. Ela e o vizinho Kim Geon-woo estudam na mesma escola, como tínhamos descoberto no episódio anterior, e costumam se encontrar na frente do elevador todas as manhãs antes de fazerem o caminho juntos – hábito que se torna a gênese do romancezinho adolescente entre os dois.
Aqui, no entanto, eles ainda não se conhecem, e mal se cumprimentam diante das portas. Apesar disso, Se-ah claramente captura a atenção de Geon-woo, que parece imediatamente encantado com a nova vizinha e colega de classe. Em determinado encontro, quando o elevador se abre para o casal, um homem mais velho já está lá dentro, e observa enquanto os dois trocam olhares de soslaio. O sorrisinho que aparece no rosto do ator indica que, mais experiente, o personagem já captou que aqueles dois terão uma historinha de amor no futuro.
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O fato de que já havíamos visto este mesmo homem (com os cabelos tingidos para parecerem grisalhos) pegando o elevador com Se-ah e Geon-woo no episódio anterior, no “tempo presente” da narrativa – e captamos também que ele torce pelo casal –, deixa essa ceninha, absurdamente simples, pra lá de prazerosa. É um toque gracioso do diretor Park Youn-seo (Em Movimento) e do roteirista estreante Park Joong-sub, mas também uma preparação. O horror de Se Desejos Matassem, afinal, é muito mais eficiente se nos importarmos com as pessoas que o sofrem.
Ou, como eu disse lá em cima: o diabo está nos detalhes.
E a competência do novo k-drama da Netflix dentro do seu gênero é de fato implacável. Se Desejos Matassem… faz seu primeiro grande acerto quando decide se concentrar em um grupo pequeno de protagonistas, cinco amigos de longa data, ao invés de se estabelecer como uma história de coro como, por exemplo, All of Us Are Dead. Aqui não são zumbis, mas uma maldição transmitida via aplicativo de telefone, que se espalha pela escola, e a série é esperta ao decidir gastar o seu tempo estabelecendo cada um dos cinco personagens interconectados que são afetados pela maldição, ao invés de construindo um contexto maior ao redor deles.
Afinal, a trama depende também, do quanto conhecemos os anseios mais profundos de cada um deles. Se Desejos Matassem… caminha na linha tênue entre o excessivamente direto e o refrescantemente desenrolado quando se trata de expor esses traços – como todo adolescente, é claro, esses personagens buscam aceitação e acolhimento, mas também guardam medos e sonhos que são inteiramente únicos a cada um deles. O trabalho grosso do roteiro, na verdade, é tornar cada um desses personagens indelével… não só fácil de identificar, mas dignos da nossa torcida enquanto a maldição os faz em pedacinhos.
Ademais, a protagonista Jeon So-young (indefectível com o seu cabelo tigelinha e excelente em suas expressões de espanto) tem tudo para ser a nova scream queen dos fãs do gênero. Ágil com seus oito episódios de 40 e poucos minutos – uma raridade no mundo dos k-dramas –, e acima de tudo realizado com consciência de quanto e quando utilizar os chavões do horror, Se Desejos Matassem… é um triunfo. Especialmente nos detalhes.






