
quem é o brasileiro que faz sucesso nos EUA
Quem acompanha as publicações de Júlio Carneiro nas redes sociais, se depara com uma rotina inusitada. Em um momento, ele está em um jatinho indo fazer compras em um mercado. Em outro, ele cozinha para os vizinhos sortudos que podem ser contemplados com seu talento.
Aos 30 anos, o brasileiro levou o encanto do sabor brasileiro para à mesa de celebridades e de bilionários nos Estados Unidos. Morando em Los Angeles, na Califórnia, Júlio conversou com o Terra sobre sua profissão, a de private chef.
“A primeira vez que cozinhei para um multibilionário — o CEO da Google — aconteceu por um acaso. Eu fui parar dentro da casa dele sem nem saber exatamente onde estava ou para quem estava cozinhando. Eles gostaram do meu trabalho e me chamaram de volta. Quando percebi, aquilo começou a se tornar recorrente. Foi ali, inclusive, que eu ouvi pela primeira vez o termo private chef. Até então, eu nem sabia que isso existia como carreira”, conta.
Na prática, um private chef prepara refeições personalizadas e exclusivas para quem o contrata. O cardápio é sempre exclusivo e adaptado ao gosto de quem irá comer. Mas a história de Júlio vai muito além do glamour por trás da profissão.
Nascido na periferia de São Paulo, o trabalho com comida sempre esteve na família. Seus pais tiveram uma barraca de pastel por muito anos. Em outro momento, sua mãe chegou a cozinhar marmitas para sustentar a casa, enquanto o pai plantava grande parte do que a família comia.
Aos 16 anos, ele conseguiu uma vaga como jovem aprendiz no hotel de luxo Unique Garden. De acordo com o brasileiro, foi a primeira vez que ele teve contato com o universo da alta gastronomia. Ali, ele teve a primeira virada de chave.
“Eu entendi, com muita clareza, que era isso que eu queria para a minha vida, mesmo sabendo o quanto aquela realidade ainda estava distante de mim. Depois disso, consegui uma bolsa para estudar gastronomia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. E talvez tenha sido um dos períodos mais desafiadores da minha trajetória. Eu não tinha dinheiro nem para os materiais do curso”, afirma.
Júlio cresceu em um bairro rural de Mairiporã, na fronteira com o município de Atibaia. Ele enfrentava cerca de quatro horas de transporte público diariamente enquanto estava na graduação. Quando não conseguia pegar um ônibus para voltar para casa, ele dormiu por diversas vezes na rodoviária.
“Pegava um transporte às 15h30 até a Rodovia Fernão Dias. De lá, pegava um ônibus ate o metrô Tucuruvi por volta das 18h e descia na estação da Sé. Depois, descia na estação República às 17h50. Subia a Rua da Consolação até a faculdade para estar dentro da cozinha às 18h15. Todo esse percurso era feito com uma mala de rodinhas com meu uniforme limpo e passado, além de apostilas, facas e utensíliso de cozinha. Muitas vezes não conseguia chegar no horário e era dispensado por atrasar 5 minutos”, relata.
As aulas da faculdade acabavam por volta das 23h15 e o jovem precisava fazer todo o percurso novamente de volta para casa. Como ele morava no interior de São Paulo, era necessário pegar um ônibus no Terminal Rodoviário Tietê, no entanto, nem sempre ele conseguia chegar a tempo e acaba dormindo na rodoviária.
A recompensa de muito esforço e dedicação veio com o tempo. Durante as férias da faculdade, ele conseguiu um estágio no restaurante D.O.M., do chef Alex Atala, o que acabou impulsionando sua experiência e visão de cozinha.
Mudança para os EUA com apenas US$ 30
Foi na faculdade que Júlio ouviu falar pela primeira vez do Culinary Institute of America, uma instituição referência em alta gastronomia cujo custo anual gira em torno de US$ 62.000.
“Fiz uma pergunta simples aos meus professores: ‘Se vocês tivessem todo o dinheiro do mundo, onde estudariam gastronomia?’. Naquele momento parecia impossível, mas dois anos depois eu estava estudando lá, na Califórnia. Pra mim, essa é a prova mais concreta de que até os sonhos que parecem distantes demais podem, sim, acontecer”, incentiva.
Como a realidade de estudar no Culinary Institute of America não cabia no bolso do jovem, ele foi para os Estados Unidos trabalhar como au pair. Ele conta que chegou ao local onde iria trabalhar com apenas 30 dólares no bolso.
“Eu fiz de tudo um pouco. Limpei neve, ajudei em mudança, trabalhei como segurança em evento de luta de UFC, cozinhei, peguei pequenos trabalhos informais… o que aparecia, eu fazia. Era uma realidade muito comum de imigrante: você vai se virando com o que tem, aprendendo rápido e trabalhando muito”, diz.
Após dois anos, Júlio decidiu que era hora de voltar ao Brasil. Na época, aos 23 anos, ele foi chamado para comandar a cozinhar do The Blue Pub, um dos mais tradicionais em São Paulo. Ele acabou retornando para os EUA com mais experiência e em busca de novos objetivos, mas a pandemia acabou atrapalhando seus planos.
Venda de marmitas na pandemia
“A pandemia foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis da minha vida. Eu me vi sem trabalho, sem dinheiro e sem perspectiva clara do que viria a seguir. Foi aí que eu comecei do jeito que dava.
Passei a fazer marmitas, cozinhar para vizinhos, ajudar pessoas do meu prédio — principalmente idosos que estavam em grupo de risco e não podiam sair de casa”, explica.
O sucesso das marmitas foi tão grande que o brasileiro recebeu um convite para cozinhar dentro de uma casa. Sem saber onde estava ou para quem estava cozinhando, ele aceitou o trabalho. Naquela noite, ele descobriu que estava cozinhando não somente para o CEO da Google, mas também para o governador da Califórnia.
Algum tempo depois, ele recebeu uma proposta para trabalhar no Vale do Silício, o que rendeu ainda mais contato com a alta gastronomia. Depois dessa experiência, ele se candidatou para uma vaga em São Francisco, até descobrir que era a propriedade mais valiosa já vendida na história da cidade.
“Trabalhei nessa casa por quase três anos, e foi ali que vivi algumas das experiências mais grandiosas da minha carreira. Comecei a liderar equipe, a operar eventos de grande escala — cheguei a realizar jantares e galas para até 300 pessoas — e a atuar em um ambiente onde muitas vezes a gastronomia fazia parte de contextos muito maiores”, afirma.
Uma das características do private chef é saber manter o sigilo sobre para quem cozinha. Segundo Júlio, essa casa recebia figuras extremamente influentes, como nomes relevantes do Vale do Silício, grandes empresários e também pessoas ligadas ao mais alto escalão da política americana, incluindo candidatos e famílias próximas à presidência.
Jantar para Elon Musk
A história mais famosa do Instagram de Júlio é, certamente, a que envolve o bilionário de tecnologia Elon Musk. O private chef chegou a servir uma coxinha bem brasileira para um dos homens mais ricos do mundo.
“Durante cerca de dois anos, eu cozinhei para ele em diferentes ocasiões, principalmente quando ele estava em São Francisco. E isso muda completamente a dinâmica do trabalho. Porque deixa de ser sobre um único jantar e passa a ser sobre consistência, repetição e confiança”, ressalta.
Mas não para por aí: o que não faltam são histórias curiosas dos bastidores desse universo. O brasileiro conta que já teve uma cliente que exigia todos os dias o preparo de 15 omeletes a serem distribuídos pelas geladeiras da casa.
“Muitas vezes, ela nem chegava a comer. Mas, para ela, o importante era saber que, em qualquer momento, em qualquer lugar da casa, ela poderia abrir uma geladeira e simplesmente pegar um omelete pronto”.
Para quem deseja seguir na profissão, Júlio explica que cozinhar bem não é um diferencial, mas uma obrigação básica. O que realmente conta é disciplina, consistência e confiança, sendo esta última, a base de tudo.
“Eu tenho plena consciência de que não sou o melhor chef do mundo, mas sou uma pessoa extremamente confiável. E, para esse tipo de cliente, isso vale mais do que qualquer técnica. Eles precisam saber que você é alguém discreto, que entende limites, que não expõe, que não invade”, aconselha.
Ele acresenta, ainda, que a flexibilidade também é importante na vida do private chef, tendo em vista que cada cliente possui um ritmo e uma rotina diferente, com regras e costumes diferentes, especialmente por estarem em outro país.
“É preciso saber ler o ambiente. Hoje eu compartilho alguns bastidores do meu trabalho, mas tudo é feito com consentimento, conversado, respeitando limites. Eesse universo pode, sim, deslumbrar. Mas é importante ter clareza: quem é rico são eles, não você. No fim do dia, você sai de um jato privado, entra no seu carro e volta para a sua realidade. E isso te mantém no lugar certo, porque você está ali para servir”, finaliza.
Gostou dessa postagem? Compartihe..



Mais visualizados!
Brasil28/04/2026Ídolo do Barcelona abre o jogo sobre Raphinha: “Ele estava frustrado”
Economia28/04/2026Taylor Wimpey sinaliza preços mais baixos no sul da Inglaterra devido ao aumento da pressão sobre os custos
Brasil28/04/2026Red Bull Bragantino vence mais uma no Brasileiro Sub-20
Jogos28/04/2026Dê um nome a esse jogo (29 de abril de 2026)



