
No 40°aniversário da catástrofe de Chernobyl, Zelensky acusa Rússia de promover ‘terrorismo nuclear’
A Ucrânia relembra neste domingo o 40º aniversário do desastre de Chernobyl, o pior acidente nuclear da história, enquanto a guerra em curso no país alimenta o receio de que a história se repita. Kiev afirma que Moscou dispara repetidamente mísseis contra a usina e que drones sobrevoam o local.
26 abr
2026
– 07h36
(atualizado às 07h42)
Um ataque com drone russo no ano passado danificou o arco de contenção que protege o reator danificado na central nuclear de Chernobyl. Neste contexto, o presidente Volodymyr Zelensky acusa a Rússia de promover “terrorismo nuclear”.
“O mundo não pode permitir que este terrorismo nuclear continue, e a melhor forma de o pôr fim é obrigar a Rússia a parar os seus ataques irresponsáveis”, disse Zelensky, referindo-se à guerra desencadeada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022. A Rússia está “mais uma vez a levar o mundo à beira de uma catástrofe provocada pelo homem”, acrescentou.
Em 26 de abril de 1986, o reator número 4 da usina nuclear, então localizada na antiga URSS, explodiu e pegou fogo após uma manutenção e um teste de segurança. Na sequência, tudo deu errado. A explosão liberou uma nuvem radioativa que se espalhou por grande parte da Europa.
“O desastre de Chernobyl foi resultado de um experimento realizado em um reator a pedido de Moscou, em violação aos protocolos de segurança, seguido por mentiras e acobertamentos”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, em um comunicado nesta semana. “Até hoje, o mundo ainda precisa lidar com as consequências de um sistema totalitário que subordinou a verdade e a ciência à ideologia e ao poder político.”
Consequências a longo prazo
Trinta e uma pessoas morreram no desastre, mas muitas outras perderam a vida precocemente devido a doenças causadas pela exposição à radiação, muitas delas no que hoje é a Bielorrússia. Dezenas de milhares de pessoas foram evacuadas permanentemente de Pripyat, a cidade mais próxima da usina, que na época tinha uma população de 50 mil habitantes.
O reator da usina agora está protegido por uma estrutura metálica em forma de arco, também conhecida como “sarcófago”, construída para cobrir um abrigo da era soviética que se tornou obsoleto. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) declarou no ano passado que o arco que protege o reator danificado na usina de Chernobyl não consegue mais cumprir sua função protetora devido a danos causados por um drone.
Nenhum vazamento foi detectado, mas reparos que custam pelo menos € 500 milhões são necessários para evitar danos permanentes, de acordo com o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento.
Mobilização até hoje, em meio à calma
A usina nuclear, localizada a cerca de 100 quilômetros ao norte de Kiev e cercada por uma zona de exclusão de 2.600 quilômetros quadrados, é marcada por uma calma incomum, constatou a Reuters na quarta-feira. Guardas Nacionais patrulham o local, onde quase 2.250 funcionários supervisionam a desativação completa das instalações. O último reator da usina foi desativado em 2000.
A sala de controle do reator número 4 é agora um cômodo escuro repleto de equipamentos enferrujados que datam da era soviética. Alces e cavalos selvagens vagam pela área ao redor e a cidade abandonada de Pripyat, já que, na ausência de humanos, a natureza retomou seu território.
Novos ataques
Enquanto a Ucrânia recorda o 40º aniversário do desastre, as autoridades anunciaram ataques aéreos russos contra infraestruturas nas regiões de Chernihiv (norte) e Odessa (sul), sem relatos de vítimas. Na região de Sumy (nordeste), um ataque com drone matou dois homens, de 48 e 72 anos, na cidade de Bilopillia, a cinco quilômetros da fronteira russa, segundo Oleg Grygorov, chefe da administração militar local.
Na região de Dnipropetrovsk (centro-leste), bombardeios com drones e mísseis mataram uma pessoa e feriram quatro, de acordo com o chefe da administração militar, Oleksandr Ganzha. Dnipro, a capital desta região, foi alvo de ondas de ataques aéreos russos por mais de 20 horas no sábado, resultando em pelo menos oito mortes.
O prefeito, Boris Filatov, descreveu o ataque como “o maior já realizado contra Dnipro”, uma cidade industrial a cerca de 100 quilômetros da linha de frente. A Rússia, por sua vez, alegou ter realizado um “ataque maciço” contra “instalações do complexo militar-industrial e do setor energético”, afirmando que agiu em resposta aos ataques ucranianos contra a infraestrutura civil russa.
Em retaliação aos bombardeios russos em seu território nos últimos quatro anos, a Ucrânia tem enviado drones em direção à Rússia todas as noites, visando principalmente instalações de energia. Na noite de sábado, as defesas aéreas russas abateram 203 drones ucranianos, segundo o Ministério da Defesa, um número muito alto em comparação com a média.
As forças armadas russas interceptaram 71 “alvos aéreos” em Sebastopol, uma importante cidade portuária na Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, de acordo com o governador nomeado por Moscou, Mikhail Razvozhayev. Ele relatou uma morte e quatro feridos após “um dos ataques mais massivos” já vistos nesta cidade de mais de meio milhão de habitantes, que abriga a base histórica da frota russa do Mar Negro.
Diplomacia paralisada
Os esforços diplomáticos para pôr fim ao conflito mais grave na Europa desde a Segunda Guerra Mundial estão paralisados. O papel de mediação dos EUA, que havia facilitado várias rodadas de negociações entre Kiev e Moscou, foi suspenso com o início da guerra no Oriente Médio no final de fevereiro.
“É importante que o mundo não permaneça em silêncio sobre o que está acontecendo e que esta guerra russa na Europa não seja ofuscada pela guerra no Irã”, declarou Volodymyr Zelensky nas redes sociais.
O conflito está se alastrando para além das fronteiras entre a Ucrânia e a Rússia: a Romênia anunciou que um drone russo caiu em seu território no sábado, perto da fronteira com a Ucrânia, levando à evacuação de mais de 200 moradores. O país, membro da Otan, tem visto repetidamente seu espaço aéreo violado e fragmentos de drones caírem em seu território desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Mas esta é a primeira vez que destroços de drones russos causam danos materiais em seu território.
Com AFP e Reuters
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