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Legacy: o fracasso de Peter Molyneux que custou US$54 milhões aos jogadores

Legacy, o jogo de Peter Molyneux, entrou para a história da indústria não pelo que entregou, mas pelo tamanho do que prometeu e pelo rastro de prejuízo que deixou. Jogadores que investiram coletivamente cerca de US$ 54 milhões em criptomoedas para garantir parcelas de terra em forma de NFT nesse simulador blockchain viram o jogo implodir em questão de semanas após seu lançamento, em outubro de 2023. Hoje, Legacy sequer aparece na lista de jogos disponíveis no site oficial do estúdio. Enquanto isso, o estúdio de Molyneux já está pedindo US$ 25 por acesso antecipado ao próximo título, Masters of Albion.

Da promessa grandiosa ao fracasso em duas semanas

Legacy não nasceu como um jogo blockchain. Molyneux o anunciou originalmente em 2019 como uma releitura do seu primeiro trabalho, “um jogo onde você tocava um pequeno negócio”, nas palavras dele. A virada veio depois de uma ligação com Mike McCarthy, que trabalhava na Gala Games. “Chegamos à conclusão de que eu havia desenvolvido um jogo perfeito para o crypto gaming. Cada mecânica do Legacy foi feita sob medida para o ambiente blockchain“, disse Molyneux em comunicado de imprensa de 2021.

A apresentação oficial da nova versão aconteceu no palco do primeiro Galaverse, conferência realizada em Las Vegas em dezembro de 2021, no auge da bolha especulativa. Molyneux prometeu “a simulação mais avançada que já estive envolvido”, com escolhas morais, narrativa profunda e a possibilidade de produzir e comercializar qualquer produto imaginável, de hambúrgueres a bicicletas. E ainda havia o apelo do “jogue para ganhar“: jogadores competiriam em desafios de design para ganhar criptomoeda. “E por ser um jogo blockchain, você também ganha“, disse Molyneux na época.

O entusiasmo foi suficiente para vender rapidamente os 4.661 lotes de terra em NFT disponibilizados. O NFT único batizado de “Coração de Londres” foi vendido por cerca de US$ 900.000 em criptomoedas. O total arrecadado com os lotes chegou ao equivalente a US$ 54 milhões ao valor de mercado na época.

Quando Legacy finalmente foi lançado, quase dois anos depois, o que esperava os jogadores era uma sombra do que havia sido prometido. O loop central girava em torno de timers artificiais e cliques repetitivos para converter colheitas em ingredientes e movê-los para fábricas. 

Uma economia construída para falhar

O plano original de uma criptomoeda exclusiva, o LegacyCoin, foi abandonado antes do lançamento. No lugar, o estúdio implementou um sistema onde os jogadores precisavam gastar Gemas, adquiridas com dinheiro real ou crypto, para entrar em desafios de design. 

O grande problema era que o prêmio total dos eventos era de apenas 15% do gasto em Gemas. Os outros 85% ficavam com a Gala Games. “Imagina se um cassino ficasse com 85% do rake em um jogo de pôquer”, comparou um jogador que havia desembolsado US$ 10.000 em um lote de alta categoria depois de testar uma demo. No fim, ele disse ter ganho “menos de US$ 100″ do investimento. Somando todos os gastos que teve com jogos da Gala, o usuário afirmou estar no prejuízo de sete dígitos.

Com o pagamento de apenas 15%, tornava-se praticamente impossível lucrar jogando. A economia do jogo estava morta em cerca de duas semanas após seu lançamento.

Lucro para quem criou, prejuízo para quem comprou

O desastre de Legacy para os jogadores não foi, necessariamente, um desastre para as empresas. Jason Brink, ex-chefe de marketing da Gala Games, explicou que a empresa pagou uma garantia mínima ao estúdio de Molyneux, e que as vendas de NFT do jogo foram direcionadas para cobrir essa garantia. Isso significa que o projeto já era financeiramente bem-sucedido antes mesmo de ser lançado. 

O próprio Molyneux confirmou o destino do dinheiro. Em entrevista à Eurogamer em 2024, ele disse que os lucros pré-venda do Legacy serviram para “trazer de volta [ex-colegas] Russell [Shaw], Mark [Healey] e Ian [Wright]” para trabalhar no Masters of Albion. “Não é barato fazer isso. Você precisa tirá-los dos seus empregos.” Mais diretamente, Molyneux afirmou: “Foi isso que usamos para a maior parte do dinheiro.”

Para Molyneux, o episódio parece ter sido uma lição cara, mas paga com o dinheiro dos outros. “Fomos convencidos por uma empresa chamada Gala Games dessa ideia e eu sou muito suscetível a essas ideias, de que o estilo jogue para ganhar poderia ser grande“, disse ele à Eurogamer.

Hoje, ele admite que, em sua opinião, o modelo “não funciona realmente, nem financeiramente, nem em termos de gameplay”. Para os jogadores que perderam até seis dígitos em dinheiro apostando na visão dele, essa conclusão chegou tarde demais.

Fonte: Ars Technica

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