
Como PCC e CV representam maior risco para Lula em encontro com Trump
O encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump previsto para quinta-feira (7/4) é visto por aliados como uma oportunidade para o petista mostrar boa relação com o republicano e, assim, tentar neutralizar o discurso de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seria o único candidato presidencial bem conectado com a Casa Branca.
O governo brasileiro pretende tratar de temas econômicos como Pix, minerais críticos e tarifas comerciais, além de cooperações no combate ao crime organizado.
A viagem, porém, não é livre de riscos para Lula. O tema mais sensível na relação entre os dois governos é a ameaça americana de classificar como grupos terroristas facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
A medida, na visão do Palácio do Planalto, abriria espaço para interferências dos Estados Unidos em território brasileiro, como ocorreu no ano passado com embarcações venezuelanas, bombardeadas sob acusação de estarem transportando drogas, algo que não foi comprovado. Depois desses ataques, o governo americano invadiu a Venezuela e prendeu o presidente Nicolás Maduro em janeiro.
A BBC News Brasil apurou que o Planalto também se preocupa com a eventual exploração eleitoral do tema, já que Flávio Bolsonaro, até o momento principal rival de Lula na corrida presidencial, tem defendido a medida como forma de melhorar a segurança pública e criticado a postura contrária do governo.
“Se eu fosse o presidente da República, facções já teriam sido declaradas terroristas e o Brasil estaria assinando o acordo de cooperação para prender esses marginais e libertar o povo”, disse em evento de pré-campanha na Paraíba, em 22 de abril.
Para o especialista em relações internacionais Guilherme Casarões, professor da Florida International University, esse é o tema que representa maior vulnerabilidade para o governo Lula na relação com os Estados Unidos.
Hoje, nota Casarões, o Itamaraty trabalha ativamente para estabelecer cooperações com os EUA no combate ao crime organizado, na tentativa de evitar a classificação de facções como grupos terroristas.
Lula abordou esse assunto, por exemplo, no telefonema oficial que teve com Trump em dezembro. Já em 10 de abril, os dois governos anunciaram um acordo entre a Receita Federal e as autoridades de proteção à fronteira americana para intensificar o combate ao tráfico de drogas e armas entre os dois países.
O combate à lavagem de dinheiro por organizações criminosas brasileiras nos EUA e a entrada de armas ilegais americanas no Brasil são dois temas em que o governo brasileiro tem buscado cooperação com a Casa Branca.
Em entrevista à emissora Globonews na terça-feira (5/5), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) disse que o assunto vai ser tratado no novo encontro entre Lula e Trump.
“Em relação ao crime organizado, esse é um tema que o presidente Lula já levou ao presidente Trump e vai levar novamente, que é um acordo para o combate a organizações criminosas transnacionais. Podemos fazer muita parceria nessa área, controle de fluxo financeiro, investigação”, afirmou Alckmin.
“Isso vale pra tudo: combustível, droga, arma, tudo que envolva esse crime transnacional.”
Os riscos eleitorais para Lula
O risco, diz o professor Guilherme Casarões, é a campanha de Flávio Bolsonaro usar a resistência à classificação das facções como grupos terroristas para acusar a gestão petista de uma suposta fraqueza ou cumplicidade contra esses grupos criminosos.
“Mesmo que a relação com os Estados Unidos não esteja diretamente implicada no debate eleitoral, ela vai chegar por vias tortas, e isso pode ter um efeito na percepção do eleitor mais ao centro, que ainda não se decidiu por Lula ou Flávio Bolsonaro”, diz o professor, em entrevista à BBC News Brasil no fim de abril.
“Então, acho que vai ser algo muito calculado daqui para frente, para que a reação seja uma defesa da soberania nacional, por óbvio, mas que não atrapalhe a relação bilateral como um todo, num momento em que, para o Lula, manter uma boa imagem junto aos Estados Unidos é crucial também.”
A gestão Trump já deu declarações oficiais sobre o tema. Em março, o Departamento de Estado disse que o governo americano vê as facções brasileiras PCC e CV como ameaças de alcance regional.
Apesar disso, uma fonte do Itamaraty minimizou os riscos à BBC News Brasil e disse que a cooperação entre os dois países na área de segurança pública “é antiga e muito boa”.
Segundo esse diplomata, a discussão sobre classificar esses grupos como terroristas não passaria de um “balão de ensaio” inflado pela “mesma turma do tarifaço”, em referência à tarifa de 50% imposta pelos EUA a produtos importados do Brasil no ano passado.
A medida foi adotada após forte campanha do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) junto à Casa Branca em busca de retaliações para pressionar contra a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pelo Supremo Tribunal Federal (STF), estratégia que não deu resultado.
Eduardo Bolsonaro mora nos Estados Unidos desde 2025 e mantém interlocução com membros do governo Trump.
Por que governo Lula não considera que facções sejam ‘terroristas’
A discussão sobre a designação de facções brasileiras como terroristas vem sendo tratada pelos dois governos há pelo menos um ano.
Em maio de 2025, o então secretário nacional de Justiça, Mário Sarrubo, disse à agência Reuters que o governo brasileiro havia rejeitado um pedido sobre o assunto feito por David Gamble, oficial do Departamento de Estado americano responsável pela estratégia do país em relação a sanções.
Na época, Sarrubo descartou a tese de que as facções brasileiras atuem como organizações terroristas. “Não temos organizações terroristas aqui. Temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade”, disse Sarrubo.
A Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) brasileira classifica como terrorismo os atos “cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”. Esses atos devem ter “razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião”.
Por isso, argumenta o governo, não seria correto classificar PCC e CV como terroristas. De acordo com o governo, a atuação das facções é movida por interesses econômicos e não políticos.
Críticos da proposta americana dizem que as facções devem ser enfrentadas com os instrumentos adequados.
“São dois tipos penais fundamentalmente diferentes. Grupos de crime organizado têm um modus operandi particular, têm objetivos muito específicos, que, obviamente, têm que ser combatidos, mas a partir dos instrumentos nacionais e internacionais que nos permitem combater o crime organizado”, afirma Guilherme Casarões.
“Terrorismo virou uma categoria, sobretudo depois do 11 de setembro de 2001, que deu aos Estados Unidos uma possibilidade de ingerência global muito ampla. Ou seja, em nome do combate ao terrorismo, os Estados Unidos muitas vezes se arvoram o poder de intervir em território estrangeiro sem nenhum processo legal.”
Segundo o professor, classificar facções como terroristas poderia também ter implicações econômicas para o Brasil.
“Qualquer empresa que possa ter, em algum pedaço da cadeia produtiva, alguma outra empresa que possa ter ligações com o Comando Vermelho, com o PCC, por maneiras indiretas, essa empresa pode ser proibida de operar nos Estados Unidos, vender para os Estados Unidos”, destaca.
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