
Artista nigeriano cria próteses realistas para pessoas pretas
As próteses, com veias, unhas de formato natural e até rugas, ainda conseguem ler sinais musculares, permitindo que os usuários controlem os movimentos
Um relatório do Observatório Global de Saúde, publicado em 2022, aponta que nove em cada dez pessoas no mundo que precisam de dispositivos de assistência, como próteses, não têm acesso a eles. Há ainda outro problema significativo: a maioria das opções disponíveis é feita no Ocidente, tomando como base as características de pessoas brancas.
O artista plástico John Amanam Sunday, da Nigéria, observou essa dificuldade e decidiu usar seu trabalho para transformar a vida da população preta de todo o mundo, que enfrenta a falta de acessibilidade. “A primeira coisa que descobri é que as próteses não são realmente feitas para pessoas como nós“, disse em entrevista ao ‘The Guardian’.
O surgimento das próteses
A ideia nasceu após Sunday vivenciar o problema pessoalmente, quando seu irmão, Ubokobong Amanam, sofreu um acidente com fogos de artifício e precisou amputar os dedos. Ao jornal britânico, o familiar contou que a maior decepção foi descobrir que “não existiam próteses hiper-realistas ou sequer realistas no estilo africano”. “Essa descoberta piorou a minha situação e intensificou a minha depressão”, afirmou.
Segundo ele, as opções disponíveis na época não se adequavam ao seu corpo e, na verdade, causavam maior incômodo. Foi nesse momento que Ubokobong e John — especialista em criar réplicas de corpos humanos para cinema e teatro — se uniram para desenvolver uma prótese adequada não somente para ele, como para os dois milhões de nigerianos que precisam do dispositivo.
No primeiro modelo, o artista plástico focou na estética, reproduzindo a cor da pele, além de unhas com formato natural e até rugas. No entanto, ainda faltava funcionalidade. Por isso, a partir dos conhecimentos do irmão em tecnologia e eletrônica, aprimoraram a criação com a eletromiografia. A inovação lê sinais musculares e, assim, permite que os usuários controlem os movimentos.
“A tecnologia biônica está facilmente disponível em outras partes do mundo. Entretanto, o que temos aqui são formas biônicas hiper-realistas, o que significa que elas têm aparência humana e, ao mesmo tempo, são funcionais”, disse Sunday, à ‘Reuters’.
Em busca de acessibilidade
Com o Braço Biônico Ubokobong finalmente pronto, o próximo passo foi fundar a Immortal Cosmetic Art. Logo começaram a chegar encomendas de todo o continente, vindas de países como Gana e Costa do Marfim. A empresa vende as próteses por cerca de US$ 7.000 (aproximadamente R$ 38.500). O custo, contudo, ainda não é acessível para muitos nigerianos.
Para possibilitar um impacto efetivo, então, John e Ubokobong buscam o apoio de governos e ONGs. Até o momento, eles já forneceram próteses gratuitas para mais de 10 clientes. “Isso representa um avanço em relação ao que já temos disponível no mercado. E a parte mais bonita é que elas têm a cor da pele negra”, comemorou Sunday.
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