
Abstenção da França em resolução sobre escravidão visou ‘evitar hierarquia’ de crimes contra a humanidade
O ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, justificou nesta sexta-feira (24) a abstenção da França na votação de uma resolução da ONU que proclama o tráfico de escravos africanos como o crime mais grave contra a humanidade. O chanceler afirmou que Paris “se recusa a criar uma hierarquia entre os crimes contra a humanidade”.
À margem de uma visita oficial de dois dias ao Togo, Jean-Noël Barrot evocou à AFP “o sofrimento que essas abominações e crimes continuam a causar uns contra os outros hoje”, ao explicar a decisão francesa. “Se quisermos construir um futuro compartilhado, é essencial sermos capazes de empreender este trabalho de memória e verdade sobre o nosso passado, tanto nos seus aspectos positivos quanto nos mais sombrios”, salientou o chanceler.
A resolução, adotada no final de março com 123 votos a favor, três contra (Estados Unidos, Israel, Argentina) e 52 abstenções (incluindo o Reino Unido e os Estados-membros da União Europeia), declara “o tráfico de escravos africanos escravizados e a escravidão racializada de africanos” como “os crimes mais graves contra a humanidade”, e condena uma “injustiça desumana e persistente cometida contra a humanidade”.
O texto foi defendido pelo presidente ganês, John Mahama, cujo país foi o primeiro no continente a conquistar a independência, em 1957.
Reparações
O tráfico transatlântico de escravos atingiu milhões de pessoas da África Ocidental e Central. A resolução pede para os Estados se envolverem em um processo de justiça para reparar os erros do passado, incluindo pedidos formais de desculpas, compensação para os descendentes das vítimas, políticas para combater o racismo e a restituição de bens culturais e espirituais saqueados.
A última visita de um ministro das Relações Exteriores francês ao país da África Ocidental ocorreu em 2002. Barrot teve encontros com o presidente togolês, Faure Gnassingbé, e o ministro das Relações Exteriores do país, Robert Dussey, em um momento em que a ex-colônia francesa estreita laços com a Rússia e se relaciona com as juntas militares do Sahel, hostis a Paris.
As relações entre Togo e a França pioraram em junho de 2025, quando Lomé suspendeu as transmissões das emissoras France 24 e da Rádio França Internacional por três meses, acusando-as de divulgar “reportagens imprecisas e tendenciosas” sobre os protestos contra o governo na capital togolesa. Os dois canais de comunicação continuam fora do ar.
“Defendi que essa suspensão fosse levantada o mais rápido possível. É do interesse de todas as partes”, disse o ministro francês.
Com AFP






